Laborum Meta (a meta do trabalho)**

5 nov

Por Alana Santos e Fabíola Abess

Uma câmera simples na mão e uma pauta para cobrir: o dia dos finados nos cemitérios de Manaus.

O que as pessoas fazem em um cemitério, além de acender velas e rezar pelos entes queridos?

Comercializam, pedem dinheiro, pregam, fazem um pouco de marketing político e pessoal…

– Areeeiiiiiiiaaaa…

– Cocaaaaaa, fantaaaaa, águaaaaaa…


O cemitério

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O Cemitério São João Batista foi inaugurado em 5 de abril de 1891 pelo médico Aprígio Martins de Menezes, sepultado no dia 19 do mesmo mês.

Em 1905, o Superintendente Municipal Adolpho Lisboa mandou construir um muro de alvenaria, um gradil e pórticos de ferro fundido, fabricados em Glasgow, na Escócia.

GARCIA, Etelvina. Manaus, Referências da História: 2ª edição revisada. Manaus. Editora Norma. 2005.

A beleza do mórbido

O cemitério está deixando de ser apenas um local visitado pelas pessoas que perderam um ente querido. Há uma importância cultural e arquitetônica, porque lá estão sepultadas figuras importantes da política, das artes e da cultura de um lugar, assim como as construções que identificam uma época.

Alguns cemitérios já estão inseridos nos roteiros turísticos de algumas cidades, como o cemitério Père Lachaise em Paris, e o Cemitério Nacional de Arlington, em Washington, onde estão os túmulos dos soldados mortos nos combates das duas grandes guerras mundiais e do Presidente John Kennedy. Em São Paulo, o túmulo de Ayrton Senna é visitado pelos turistas que chegam à cidade.

Na Baricéa não é diferente. Há um projeto da prefeitura para transformar o cemitério São João Batista em um corredor cultural, com visita de turistas e estudantes. O objetivo é a educação patrimonial para a conservação dos bens.

Os gradis e os vitrais, assim como algumas sepulturas, já estão sendo restauradas. É possível encontrar beleza e valor em coisas que muitas vezes passam despercebidas. Lá você pode encontrar uma lápide, um túmulo e, principalmente, histórias bem interessantes.

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O rabino

O blog Baricéa Desvairada encontrou o pesquisador Arieh Lins da USP, que estava entrevistando os visitantes do cemitério São João Batista. Ele está fazendo uma pesquisa de doutorado sobre a Emigração Judaica na Amazônia e contou um pouco da história do rabino Muyal.

O rabino Shalom Imanu – El Muyal morreu no dia 12 de março de 1910 em Manaus. O rabino morreu de febre amarela e, como na época não existia um cemitério israelita na cidade, foi sepultado no cemitério católico São João Batista.

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Depois de alguns anos, placas começaram a aparecer na sepultura do rabino para agradecer por graças alcançadas. Com o tempo, o costume judaico de colocar uma pedra sobre a sepultura também foi adotado, por causa disso a comunidade judaica percebeu que El Muyal tinha virado um santo para os católicos de Manaus.

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Em 1980, o sobrinho do rabino, Eliahu Muyal, membro do Parlamento de Israel e Vice Ministro dos Transportes, tentou transferir os restos mortais do tio para Israel através do professor Samuel Benchimol, presidente da comunidade israelita no Amazonas. Mas o pedido não foi aprovado. A transferência do corpo do rabino poderia causar uma revolta na população católica da época.

Outros personagens

A santa

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Etelvina nasceu no Ceará e veio para Manaus com o pai, na época da extração da borracha, entre 1860 e 1910. Ela foi assassinada por um homem que, em seguida, cometeu suicídio. Ele era apaixonado por Etelvina. Os corpos foram encontrados em forma de cruz. Santa Etelvina nunca foi canonizada pela Igreja Católica.

A foliã

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Ária Ramos foi uma violinista no periodo áureo da borracha. Ela foi assassinada, acidentalmente, em 1915, em um baile no Ideal Clube, em Manaus. Um dos rapazes apaixonados por ela começou a brigar com o outro, quando tirou uma arma e disparou, atingindo por engano Ária Ramos. Ela foi enterrada no cemitério São João Batista e uma estátua foi erguida no local.


**Laborum Meta: inscrição encontrada no pórtico do cemitério São João Batista.

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8 Respostas to “Laborum Meta (a meta do trabalho)**”

  1. Allan Gomes sábado, novembro 8, 2008 às 8:52 #

    Legaaaal!!!

    Bem didático esse post.

    Ei! Eu tenho uma reportagem, que ainda não foi editada, sobre a Etelvina Garcia.
    E o caso da Ária Ramos (esse o nome?) é citada numa peça do Márcio Souza….

    Ãh? Quem peguntou? Ah, ninguém, mas é interessante cruzar essas hiastórias…

  2. Richard Cardoso terça-feira, abril 28, 2009 às 23:37 #

    Nossa amei ler seu Post !! ando tanto procurando lugares com arquitetura e historias como estas que nem me dei conta que estava justamente proximo a tantos fatos interessantes … muito obrigado e meu Parabens !!

    • desvairadabaricea terça-feira, maio 12, 2009 às 12:23 #

      De nada, Richard.
      Aceitamoas sugestões de pautas.

  3. Ária Ramos. segunda-feira, agosto 10, 2009 às 2:02 #

    Ah! Quanta saudade. Tudo mudou…Vi o quão é triste a distância. Somente agora sei o que é saudade. Se soubesse o sentir dessa falta profunda,jamais me encontraria com aquela falsa alegria. O sentir não é só o amor de dois seres. O sentir é a cristal resplandecencia, viajando na sombra das coisas. Tudo é sombra da saudade. Quem me chamou foi a música.De repente fiquei leve, sentia o ar mais leve, sentia o medo de muitas luzes, e um medo da fugacidade que experimentava meu corpo. Depois, revi o que não me pertencia mais.Pude voltar, mas voltar, nunca foi ficar.

  4. Frankdmanaus terça-feira, março 2, 2010 às 23:21 #

    Muito bom…pelo menos agora sei o que significa a frase em Latim…”Laborum Meta”
    Parabens pelo seu post…

  5. carlos kitzinger domingo, abril 17, 2011 às 1:19 #

    gostei muito de descobrir o que significa “LABORUM META”,isso até despertou em mim um tema pro meu trabalho de conclusão de curso na faculdade de teologia. valeu, super interessante suas pesquisas.

    parabéns.

    goste

  6. Anônimo sexta-feira, julho 15, 2011 às 12:13 #

    Gostei da breve discrição sobre a Santa Etelvina, é raro achar qualquer menção na internet sobre ela.

  7. Beto Tavarovsky sexta-feira, junho 20, 2014 às 12:54 #

    O sentido de Laborum Meta, não é o seu sentido literal (meta do trabalho) e sim, o fim da luta que é a a vida, e o descanso eterno.

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